
Uma casa que seja nossa, que a sintamos mesmo assim, deseja-se, conforta-nos, cria raízes e cresce em nós. Ao entrar ou ao sair, sabemos que primeiro são cinco degraus, depois são dez e a seguir são os que forem. Mais ou menos com os copos, ás escuras, de olhos fechados, vendados, chegamos á fechadura, sabemos onde está, tacteamos, pomos a chave primeiro torta e depois direita ou depois direita e antes torta mas entra, e a porta abre. Nunca duvidámos que isso acontecesesse. Lá dentro, com sono ou com insónias, as sombras são as mesmas. No tecto, reflectem-se personagens, figuras, os carros que ainda passam e que consigo distinguir, no tecto. O barulho da rua. Fiquei acordada noites inteiras, de contentamente, de tristeza, de apreensão e elas lá estavam, sempre, as sombras. As mesmas, a movimentarem-se previsivelmente inconstantes. E depois as coisas, nos sitios, ou onde nunca se encontravam, mas acabavam por aparecer onde e quando menos se esperava. Coisas até que nem sabíamos já existirem. Mas estavam. Ainda hoje, cheias de pó, algumas partidas, outras estragadas outras já sem alma, nenhuma, que lhes devolvi, hoje. Estavam. Os Natais, os Aniversários, os Dias de Festa, a minha família, toda, todos ali, comigo, connosco. Estava sempre quente. A minha casa, de sempre, para sempre, onde me fiz, bem, mal, mais ou menos, o que sou. As escolhas que fiz, bem, mal, mais ou menos, ali. A minha casa, membro indiscutível da minha família, deixou de o ser e neste momento não sei que faça, estúpidamente, a este vazio imenso, de degraus, fechaduras, tectos, paredes e coisas que não aquelas, naqueles sítios. Simplesmente porque as sombras nunca serão iguais.



